10/12/2011 - Comunidades quilombolas participam de encontros para debater turismo de base comunitária e patrimônio cultural

A Casa Paroquial de Iporanga, no Vale do Ribeira, recebeu nos dias 17 e 18 de novembro quilombolas representando 25 comunidades de oito municípios (veja quadro no final) para um encontro onde debateram os impactos do turismo comunitário e participaram da apresentação do Dossiê de Paisagem Cultural do Vale do Ribeira.

O primeiro a falar foi Ditão Alves, liderança do quilombo de Ivaporunduva, que relatou a todos suas viagens a Brasília junto com Maurício Carvalho, do ISA, solicitando auxílio para fomentar o turismo comunitário. Lembrou ainda a importância de qualificar o pessoal para receber os turistas, que não participam da rotina da comunidade. Para eles foram criados roteiros específicos. “No turismo existem coisas boas e ruins”, disse o líder quilombola, que é presidente da Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (Eaacone) e integra a Comissão Nacional de Articulação das Comunidades Rurais Quilombolas – Conaq. Ditão lembrou que existe uma grande preocupação com a entrada de drogas nas comunidades e que durante as boas vindas aos turistas, é feito um alerta sobre isso.

O antropólogo Diegues ao lado de Ditão fala sobre os cuidados a serem tomados para que a vida comunitária não se perca


Em seguida, o antropólogo Antonio Carlos Diegues, do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas úmidas Brasileiras (Nupaub), da Universidade de São Paulo falou sobre os impactos do turismo nas comunidades. Levantou os problemas que uma atividade pode causar e o que fazer para que o turismo traga benefícios, para que a vida comunitária não se perca. Lembrou o caso dos pescadores da Prainha do Canto Verde, no Ceará, que utilizaram o turismo para fortalecer sua luta pelo território, em parceria com a Pastoral da Terra. Explicou que o turismo naquele caso não prejudicou as atividades tradicionais e enfatizou que é isso que o turista busca: a comida tradicional, as festas tradicionais. E alertou para a questão do dinheiro. Que se deve ter cuidado e não ter expectativas de ganhar muito dinheiro com a atividade. Diegues ressaltou que a manutenção do equilíbrio de renda entre as pessoas envolvidas no turismo é fundamental para não gerar conflitos e desagregação na comunidade.

Grupos apresentam sugestões

Depois, os participantes foram divididos em cinco grupos cujos trabalhos foram norteados por algumas questões básicas: o que entendemos por turismo de base comunitária; quais as vantagens e desvantagens do turismo; e como a comunidade pode se organizar para administrar a iniciativa de turismo de base comunitária.

Atividade em grupo mostra a importância de trabalhar em rede


Sobre a primeira questão ( o que entendemos por turismo de base comunitária)as definições em geral foram: o turismo tem que se dar dentro do território da comunidade e deve ser aceito por todos; deve estar focado na história, na cultura e no cotidiano das comunidades, valorizando-os; a comunidade deve ter o controle sobre as atividades turísticas, que devem resultar em renda. A segunda questão focada nas vantagens e desvantagens dessa atividade foi bastante animada.

Entre as vantagens destacaram-se:

  • oportunidade de geração de renda e distribuição na comunidade;

    - melhoria na infraestrutura;

    - possibilidade de envolver os jovens nas atividades;

    - oportunidade de divulgar a cultura, a história e as tradições quilombolas;

    - troca de experiências;

    - incremento à venda de artesanato e produtos das comunidades;

    - fortalecimento da luta territorial e da organização comunitária;

    - maior conhecimento dos atrativos oferecidos pelas comunidades.

Entre as desvantagens apontadas os participantes dos grupos relacionaram preocupações e hipóteses que devem ser consideradas nos projetos de turismo de base comunitária.

- desigualdade de renda entre os quilombolas;

- doenças;

- prostituição;

- drogas;

- perda da cultura;

- geração de conflitos dentro da comunidade;

- problemas de saneamento;

- lixo.

A administração do negócio

A terceira questão em debate pelos grupos girou em torno da organização necessária para administrar a atividade. Daí surgiram algumas sugestões, tais como:

- contar com a colaboração das pessoas mais experientes e valorizar seu conhecimento;

- a atividade deve ficar sob controle da comunidade;

- a atividade turística não deve interferir no cotidiano das comunidades;

- necessidade de formar um grupo pequeno, um grupo gestor, para administrar, com prazo de mandato para ser substituído;

- organizar o grupo via associação da comunidade, que se encarregará de supervisoná-lo;

- regras internas claras estabelecidas;

- autonomia para que o grupo possa tomar decisões cotidianas, mas decisões mais importantes, que tenham a ver com alterações na atividade devem ser levadas ao conhecimento da comunidade por meio de uma assembleia;

- capacitar e qualificar os envolvidos com a atividade.

O dossiê da paisagem cultural

No segundo dia do encontro, a professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo, Simone Scifone, falou aos quilombolas sobre a chancela da paisagem cultural. Explicou que não nenhuma paisagem cultural chancelada e que o tema tem a ver com a proteção da cultura, e vai além do simples tombamento. Trata-se de um espaço maior, que protege a natureza, a cultura e suas manifestações. A chancela, segundo Simone, busca criar uma rede de proteção e envolve o poder federal, estadual e municipal. e a sociedade civil.

O processo da chancela no Vale do Ribeira teve início em 2007 e em 2009 com o |Revelando São Paulo, evento realizado em Iguape com a participação de 29 instituições que relacionaram os principais patrimônios a serem protegidos. O Rio Ribeira de Iguape, é o exemplo na região. Como o objetivo é proteger a cultura, não se deve esquecer que o rio é um recurso natural que serve de mediação nas relações de cultura. Entretanto, a proposta de chancela do rio está parada desde 2009.

Durante o debate surgiram questões sobre a fiscalização da proteção a essas paisagens e sobre as vantagens e desvantagens do tombamento em relação à chancela.